Os
psicanalistas... ou a psicanálise posta à prova?
Teresa Palazzo Nazar
Psicanalista, membro da Escola
Lacaniana de Psicanálise-RJ.
Delegada da ELP-RJ junto ao
Movimento Convergência.
Falar do que nos ocupamos, às vezes por
décadas e quase todos os dias, poderia ser tarefa enfadonha e rebarbativa. No
entanto, o que nos move é a firme determinação em interrogar o desejo que anima
cada psicanalista na direção do que é sua causa, isto é, a condução das
análises e, se possível, suas finalizações.
Ficar no campo da práxis da
psicanálise tem a vantagem de não nos fazer escorregar nas especulações e
suposições equivocadas sobre outras práticas. Ao mesmo tempo, coloca-nos frente
ao rigor a ser mantido na realização da investigação pretendida, sem fazer leituras
levianas e/ou correções indevidas.
Nossa questão recai sobre a
posição do psicanalista em seu ato – que evoca a posição de herói trágico – num
mundo que decretou a morte da tragédia. Ao afirmar tal situação conflitante
entre o que está no cerne do ato psicanalítico e a busca de felicidade e
completude das demandas que nos chegam, não dizemos nada de novo. No entanto,
se o discurso psicanalítico é aquele que instrumentaliza os outros e se sua
eficácia depende do vigor e rigor daquilo que o fundamenta, vale interrogá-lo,
primeiro, onde ele nasce, isto é, nas análises.
Bem... não temos certeza do que
se passa em uma psicanálise, só sabemos dos seus efeitos, inclusive dentro da
própria comunidade psicanalítica. Se a questão é colocar à prova o que sustenta
a descoberta freudiana, parece-nos importante trazer uma reflexão sobre a
gravidade da perda desta dimensão tão singular, experimentada pelo inventor da
psicanálise e repetida por Jacques Lacan. O desejo é trágico porque estamos
prometidos à morte e porque, não importa o que façamos, nossa mísera existência
está enraizada ao que se diz e ao que não diz... assim como as entrelinhas,
entre um dito e o que fica por se dizer.
A radicalidade do inconsciente,
sua estranheza não domesticável, a impossibilidade de conciliá-lo com o que é
dos campos da ciência, religião, filosofia, etc. – colocando-se como o que se
atém à experiência da transferência no aqui e agora de cada sessão –
impossibilita-nos de fazer uso de técnicas, diagnósticos preconcebidos a partir
de manuais e toda uma infinidade de premissas já previstas em protocolos. Lugar
do inesperado, da surpresa por excelência, o inconsciente obriga-nos a uma
atenção curiosa, na qual o que interessa surge abruptamente e sem pedir
licença.
Nossa tarefa é a de manter os fundamentos da
psicanálise, tarefa difícil quando se pensa que isso implica não ceder às
facilitações e/ou influências de tendências deformadoras, seja dentro ou fora
da comunidade psicanalítica. Trata-se de assumir a responsabilidade de uma transmissão
que se dá pelo viés do que se perde do saber constituído, radicalidade do
inconsciente que não se diz, mas se manifesta em seus tropeços na fala e cujos
efeitos incidem no discurso tecido no percurso da análise.
Vejam: trata-se de andarmos na
corda bamba! O saber inconsciente com o qual lida a psicanálise não é
cumulativo, não pode se objetivar porque tende ao recalque, ao esquecimento,
avança lentamente e está sujeito a recuos. Talvez, por isso, a formação dos
psicanalistas não seja possível senão a partir do que se opera, sobretudo, em
suas análises. Mas será que o que delas se extrai encontra eco na condução das
análises das quais os psicanalistas se ocupam? Difícil de responder, dado que a
experiência nos mostra que as análises, mesmo as que podemos dizer que são
levadas longe o suficiente até esbarrar no afeto do ódio – este sim o mais
difícil de transpor – evidenciam certa recusa em suportar a perda que lhes
caberia como um fim possível.
Tanto o ódio quanto a
impossibilidade de normatizar o inconsciente ocuparão boa parte das reflexões,
inclusive tardias, de Freud, sobretudo o que ele dirá em vários de seus textos ao
se referir à barbárie.
Quando, em 1915, ele nos fala da
guerra, chama-nos a atenção para o fato de que o “estado civilizado” não é
menos celeiro do ódio do que a guerra em si. A pulsão de morte está sempre
presente, subvertendo e perturbando as inteligências mais elaboradas, em função
da intensa atividade das moções pulsionais primevas. O que daí se mostra está
articulado ao que do infantil permaneceu sem nome, selvagem, levando à passagem
ao ato, diretamente, sem nenhuma mediação do discurso.
Não seria necessário lembrar,
mas fazemos absoluta questão de trazer esse pequeno recorte de Freud, no qual,
já no fim da vida, em seu texto sobre Moisés
e o monoteísmo, nos diz:
“Contudo, pode
ser menos conhecido que a influência compulsiva mais forte surge de impressões
que incidem na criança numa época em que teríamos de encarar seu aparelho
psíquico como ainda não completamente receptivo [...] O que as crianças
experimentaram na idade de dois anos e não compreenderam nunca precisa ser
recordado por elas, exceto em sonhos; elas só podem vir a saber disso através
do tratamento psicanalítico. Em alguma época posterior, entretanto, isso irromperá
em sua vida com impulsos obsessivos, governará suas ações, decidirá de suas
simpatias e antipatias e, com frequência, determinará sua escolha de um objeto
amoroso, para a qual quase sempre é impossível encontrar uma base racional.”
(FREUD, 2006, p. 140)
Podemos, então, afirmar que os
afetos enigmáticos governados pelo pulsional e presentes nas organizações
sintomáticas vigoram, mesmo na dita vida civilizada, e podem muito bem aparecer
em situações imprevisíveis, incontroláveis ética e/ou moralmente, anulando todo
e qualquer pacto simbólico.
É compreensível o porquê de
Freud ter se preocupado em dizer, ao final de sua elaboração teórica, que o que
se opera nessas situações é a lógica do vivo, discordante do que se deu no
processo de estruturação e aprendizagem. Não há como negar que a tensão entre o
pulsional e o necessário submetimento à ordem simbólica é gerador de pathos, pois a grande questão para os
psicanalistas é como fazer com que os analisandos apreendam o que lhes cabe de
seus ditos sintomas, isto é, o que neles há de incurável.
Em 1929, no Mal-estar na civilização, Freud nos aponta os problemas que se
intrometem nas psicanálises em curso, oriundos da vida orgânica e das formações
do inconsciente, que se referem à construção do humano e que dialogam com o que
Jacques Lacan, trinta anos depois, no seminário Ética da psicanálise (1959/1988) retomará para nos dizer, logo no
início da apresentação do programa daquele seminário:
“Alguma coisa,
certamente, deverá permanecer aberta no que se refere ao ponto que ocupamos na
evolução da erótica e do tratamento a fornecer, não mais a fulano ou cicrano,
mas à civilização e a seu mal-estar. Deveremos talvez fazer o luto de toda e
qualquer inovação efetiva no âmbito da ética – e até certo ponto poder-se-ia
dizer que algum sinal disso se encontra no fato de que não fomos nem mesmo
capazes, após todo o nosso progresso teórico, de originar uma nova perversão.
Mas seria, contudo, um sinal seguro de que chegamos verdadeiramente ao âmago do
problema do tema das perversões existentes se conseguirmos aprofundar o papel
econômico do masoquismo.” (LACAN, 1988, p. 25)
Ora, a “infância” incurável de
que nos fala Freud no Mal-estar e que
Lacan aponta no início do seminário da Ética,
quando afirma que não fomos capazes em nossas elaborações teóricas de originar
uma nova per-versão, lembra-nos que o Supereu, herdeiro do Complexo de Édipo,
não é suficiente para superar o ódio a si próprio. O mesmo que está presente na
elaboração do texto freudiano Luto e
melancolia, no qual, o ódio a si no outro, bem como o ódio ao outro em si,
se apresentam de modo devastador, incorporado no psiquismo.
Freud retoma as questões
referentes à crueldade e à destruição do homem pelo homem em vários momentos de
sua obra. Evoca o impulso mais arcaico, aquele que diz respeito à pulsão de
morte não erotizada e que, portanto, resta como incurável no percurso
civilizatório. Retomamos a pulsão de morte para lembrar o que Freud nos diz que
funciona como puro batimento repetitivo, sozinho, e que diz respeito ao que não
se submete ao progresso civilizatório. Aliás, o “progresso” é sempre uma
questão que se apresenta aos psicanalistas, uma vez que caminha na contramão de
suas experiências, o que levou Lacan a afirmar no Discurso de Roma que a religião e o exército certamente
sobreviverão, mas a psicanálise... eis a questão! Seu objeto é a perda; como é
possível levar alguém a aceitar perder, sobretudo seus ideais, num mundo cujo
valor é o dos ganhos?! “O que pode uma psicanálise num tempo que deprime e inibe
o sujeito justamente de fazer uso do dispositivo de fala que é por ela
ofertado? É a depressão a vertente da impotência do sujeito frente ao
impossível do estrutural melancólico e trágico do sujeito”.[1]
Como sabemos,
“no luto e na
melancolia é o Ideal do Eu que é abalado, sua sustentação é perdida,
consequentemente há abalo no eu ideal, perda narcísica [...] a máscara
imaginária familiar torna-se a imagem do duplo causando, ao invés de uma
inquietante estranheza, uma profunda tristeza. Tristeza que faz parte da
estrutura psíquica porque ela é a expressão da dor própria à existência [...].
A cada perda o sujeito é remetido à castração. A queda do Ideal faz emergir o
vazio no campo do Outro.”[2]
o
campo no qual o sujeito vai buscar as insígnias que lhe deem contorno e
existência. Mas, se o traço contemporâneo é a insuportabilidade do vazio, a resposta
que se observa é o recrudescimento da consistência das imagens idealizadas,
dificultando o trabalho psicanalítico para desconstruí-las.
Evidentemente, as análises dos
psicanalistas também sofrem os efeitos da dificuldade em transpor a barreira dos
ideais, talvez, por isso, muitas vezes eles se refugiam nos estudos teóricos e
num suposto poder oferecido pela posição de “mestre”, para fazer consistir
imaginariamente em suas defesas, contra a castração. Por esse motivo, pode-se
hoje observar que alguns psicanalistas têm dificuldades de encontrar nas instituições
e escolas de psicanálise, junto a seus pares, um refúgio contra o mal-estar, fazendo
disso uma ‘base de operações’. Sendo possível uma transferência de trabalho,
garantir-se-ia minimamente a sobrevivência do discurso psicanalítico. Além
disso, ter-se-ia o discurso crivado por rivais à altura de fazê-lo, mas... ao
contrário, eles preferem o conforto de estarem em outros “lugares” garantindo
seus semblantes...
De todo modo, o mais forte
adversário da psicanálise não será encontrado em outros campos, mas sim no
interior da comunidade psicanalítica. No Mal-estar,
Freud nos diz que não é possível pensar em amor universal entre os homens –
vide a intolerância oriunda das religiões em geral e da cristã, em especial,
que perpetrou a barbárie contra os não convertidos. Assim, sucessivamente ao
longo dos séculos, nas demais religiões, observa-se a dificuldade em tomar os
“outros” como dignos de reconhecimento e respeito, quando se pensa que, para
pertencer aos “mesmos” é preciso violentar, satisfazendo as pulsões de
destruição. Economia psíquica que vigora mesmo no interior das comunidades e
nos agrupamentos de psicanalistas nos quais aquele que se arrisca a questionar
a doutrina, mesmo com fortes e bons argumentos, corre o risco de ser alijado.
Coisa curiosa, pois nos parece
que a interpretação mais importante da frase “wo es war soll Ich werden” (onde era “isso” o eu deve advir) é que
uma psicanálise produza sujeitos, isto é, alguns “civilizados” que reconheçam
as diferenças e as comemorem nas trocas simbólicas entre pares! Ora, para isso,
é necessário fazer o luto do pai, do mestre, do educador, do professor, etc.
Necessária queda dos ideais que, condensados no sintoma do neurótico, o impedem
de abandonar a posição infantil, narcísica, que o emperra na relação com o
semelhante.
Seriam os próprios psicanalistas
responsáveis pela enorme oposição e recusa que lhes fazem alguns campos outros
do saber? Se a resposta for afirmativa, será que podemos pensar que isso se
deve à enorme dificuldade, dentro da própria comunidade psicanalítica, em
suportar o peso de seu objeto, isto é, a perda a mais radical, que é a do próprio
sujeito, logo que surge? “O sujeito, como a faixa de Moebius, é o que
desaparece no corte” (LACAN, 1965).
“‘Isso’ implica
considerarmos que, para toda intervenção, para todo tratamento possível, há o
real em jogo, ou seja, o impossível de harmonizar, de padronizar e de
classificar. Dessa maneira, constatamos que, em todos os ensaios terapêuticos,
a psicanálise chega como a ‘última da fila’, o que gera, em alguns
psicanalistas, certo sentimento de fracasso.”[3]
Sentimento com o qual terá de
sustentar a eficácia de sua prática! Estranha posição do desejo do
psicanalista, que opera como instrumento entre um discurso e outro, que
comemora a perda de sentido e não o ganho, que tem como sucesso o fracasso e
que não promete nada além de que, ao fim, está a morte!
Não nos esqueçamos do fundador
da psicanálise e dos ensinamentos que nos deixou, os quais, revisitados e até
certo ponto subvertidos por J. Lacan, mostram que a herança a ser sustentada
depende dos próprios psicanalistas e de suas posições em relação à transmissão,
isto é, da disposição em reconhecer que não se inventa nada apagando o que vem
antes ou suprimido o que brilha ao lado! Não seria esse o pagamento que não
pode faltar àqueles que se reúnem nas escolas e instituições de psicanálise,
ali pretendendo um refúgio contra o mal-estar e, ao mesmo tempo, uma base de
operações?
“Sustentar seu lugar numa escola de
psicanálise não é nada simples. Todos nós sabemos bem disso: as diferenças
entre os pares, as nossas próprias críticas, nossas vaidades... ao se ‘pagar’
numa Escola, o que se vela e se revela do sujeito?”[4]
Questão interessante que nos defronta com os limites da ação do discurso que é
o nosso e recoloca a problemática do humano, que diz respeito ao indizível; por
isso, é preciso entrar nessa “patota” acompanhado. Quer dizer, entra-se no
humano acompanhado dos ancestrais, dos mortos, representações de uma perda
original que funda todo e qualquer rito
e, consequentemente, escreve o mito
como origem secundária ao rito.
Quando o convívio entre os psicanalistas
se ritualiza, trazendo à cena o que do mito individual não foi analisado, um
Supereu feroz impede o trabalho. O mesmo se dá quando se pretende fazer valer a
doutrina (psicanalítica) no defrontar-se com outras áreas de produção de saber.
Claro, nessas situações é preciso fazer
uso de boa política; não da politicagem, da barganha de poder, mas da política
do desejo. Já avançamos o suficiente para sabermos que o desejo é, no ser
humano, impensável... a não ser na relação com o significante e os efeitos que
ali se inscrevem – mas será que os psicanalistas querem mesmo dar provas disso?
Será que estão preparados para sustentar toda a virulência do ato
psicanalítico, sem barganhar com o que se mostra como “mestrias do
contemporâneo”? Será que aceitam pagar, dentro e fora da comunidade
psicanalítica, com o que vai “ao coração do ser”?
Referências
FREUD,
S. Moisés e o monoteísmo. Rio de
Janeiro: Imago, 2006.
LACAN,
J. A ética da psicanálise. Rio de
Janeiro: Zahar, 1988.
LACAN,
J. “Problemas cruciais para a psicanálise”. Inédito, aula de 10 de março de
1985.
[1] Contribuição
textual de Ana Paula Gomes, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ e delegada
da ELP-RJ junto ao Movimento Convergência.
[2]
Contribuição textual de
Flávia Chiapetta, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ.
[3] Contribuição
textual de Fátima Amaral, membro da Escola Lacaniana de Psicanálise-RJ e delegada
da ELP-RJ junto ao Movimento Convergência.

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